Houve algo que, na nossa breve relação, nunca tive oportunidade de fazer: contar-Te como era o quotidiano da minha vida.
Mas agora que acabaste com ela, posso escrever aqui como é o meu quotidiano hoje em dia, apesar de saber que é improvável que algum dia leias isto.
Mas agora que acabaste com ela, posso escrever aqui como é o meu quotidiano hoje em dia, apesar de saber que é improvável que algum dia leias isto.
Acordo sempre às sete. Está biologicamente programado, há muito tempo, antes até de Te ter conhecido.
Fico na cama apaticamente deitado, a tentar compensar a hora tardia a que me deitei e a ganhar coragem para me levantar mesmo.
Por esta altura, a minha mente ainda está no seu estado puro: oca. Está vazia, e eu também. Mas quando me levanto, começa o maldito pesadelo.
Lentamente, a minha mente tem de começar a ajustar-se ao que significa ser Eu: quem eu sou, como me comporto, com quem e como me relaciono, o que a sociedade espera de mim, o meu papel, e o meu estatuto.
É então que começo a representar. Como um actor, finjo que eu ainda sou eu, quando na verdade o deixei de o ser no dia levaste a minha alma e o meu coração contigo, para os deitares ao lixo.
Acho que sou um bom actor. Por fora, mostro a minha atitude de outrora, a que todos já se habituaram. Uma atitude despreocupada, bem-disposta. Uma atitude feliz.
A máscara funciona tão bem que há fracções de segundo em que me engano a mim mesmo.
Começam as aulas. Nunca penso em ti (que alívio!) excepto em psicologia, onde com alguma frequência tenho motivos para pensar na minha vida, o que implica imperdoavelmente pensar em ti.
Vejo-te nos intervalos, quando te vejo. Tento ignorar, mas custa tanto.
Na hora de almoço, só como porque o corpo pede. Nessa hora, raramente te vejo naquela maldita escola. É óptimo.
À tarde nunca estás por perto, tirando algumas excepções.
Quando passo as tardes acompanhado, o tempo passa depressa.
Sozinho, o relógio sufoca-me. Falta sempre tanto tempo para a meia-noite, tanto tempo para poder ir dormir e dar por terminado mais um maldito dia desta existência sem sentido.
Mas a noite lá chega por fim.
É quando penso mais em ti. Lembro-me das noites em que me deitava ultra-tarde, por causa das nossas conversas de outro mundo. Eras a minha ocupação. Agora, não tenho nada.
A não ser o piano de vez em quando.
A propósito: adormeço sempre a ouvir a música que compus para ti. Por isso, adormeço sempre a pensar em ti.
Winter Sun reflectia a luz a rasgar pelas nuvens mais cinzentas, a esperança que significaste para mim no período mais negro da minha vida. A esperança de ter algo épico a que me dedicar vinte e quatro horas por dia: Tu.
Tu deste essa a esperança, e muitas outras, e depois tiraste-mas sem piedade.
Por causa disso, perdi a esperança na esperança.
E desde então, parece que fiquei bloqueado.
Parece que estou preso a essa maldita música e não consigo compor mais nada.
Da mesma forma que estou preso a ti, por pensamento, para sempre.
Haverá forma de mudar isto?
Haverá, afinal, alguma esperança?