Logicamente, o acto de coçar é estúpido.
Que puto de sentido faz uma pessoa estar a arranhar, esgadanhar a sua própria pele?
Não faz sentido nenhum, mas a pessoa fa-lo-á mesmo assim.
Porque coçar alivia a comichão.
Por momentos, é como se a comichão não existisse.
O que não estamos à espera é que, depois do suposto alívio, coçar traz vermilhidão. Só fez pior.
E coçamos novamente, para aliviar outra vez.
E qualquer dia damos por nós a arrancar a pele.
Deste-me comichão.
Claro que sim, detectar a ficção e a contradição nos lábios que normalmente me beijavam e que diziam, achava eu, a verdade, é incómodo, no mínimo.
Obviamente que cocei, e quanto mais coçava, mais precisava de coçar.
Para quê insistir tanto?
De que serve procurar tão a fundo?
Mesmo quando a verdade é óbvia e mete-se à frente dos nossos olhos, a rir-se de nós, sentimos a necessidade de ir mais a fundo.
De procurar mais detalhes, mais peças do puzzle.
Mesmo quando já só nos falta a última peça do canto e a imagem já é bem clara, precisamos dela, precisamos de encaixá-la.
O problema é que essa verdade é dolorosa, e cada peça encaixada parece trazer dor suficiente para mil anos.
Não faz sentido nenhum, mas nós fá-lo-emos, mesmo assim.
Tornamo-nos masoquistas pela verdade.
Porque todos vivemos em ilusões e chegamos a aceitá-lo, mas quando nos espetam com a verdade na cara, aí já não, já é demais, temos de recusar.
Por muito que a verdade magoe, precisamos dela como de uma droga. Fazemos de tudo para chegar a ela.
E qual a recompensa?
Perdemos tudo.
O que era nosso, de facto.
O que não o era, de facto, mas para nós o era, em ilusão, em sonhos.
A verdade fica com tudo o que nos pertencia.
Nós, que tanto fizemos por ela, por chegar até ela.
Mas ela é mesmo assim.
E por muito que não faça sentido, faríamos tudo isso novamente, mesmo assim.
Por muito que não faça sentido, da próxima vez que a comichão vier, coçaremos.
Até ao fundo, até ter a última peça do canto.
Até arrancar a pele.
Entretanto, tentamos viver de sorriso na cara, aproveitamos enquanto a comichão não volta.
Pergunto-me.
Porque se tento manter a minha mente ocupada sempre que possível, há alturas em que não há como escapar, e tu entras nela. Nós entramos.
É quando começo a reflectir sobre coisas impensáveis, procurando detalhes só porque sim, só porque assim outras memórias voltam.
Memórias são só memórias, mas se forem boas, porque não?
Mesmo que o final seja negativo, valem muito as memórias daqueles momentos em que era cego e surdo à verdade, e ignorava o abismo para o qual caminhávamos.
E, então, pergunto-me.
Apercebo-me daquilo que nunca me perguntei, e pergunto-me.
O que pensas tu de mim?
Hoje, o que pensas tu de mim?
Naquele dia, o que pensaste tu de mim?
Apercebo-me das possibilidades.
Será que pensaste que foi fácil para mim?
Será que pensas que não quero tudo de volta?
Será que não te ocorre que eu daria tudo o que tenho, vendia a alma ao Demónio, se em troca pudesse ter-Nos de volta? Se em troca pudesse mudar a realidade, transformar a verdade em ilusão, apagar as coisas más, e deixar apenas o que traz agora boas memórias?
Infelizmente, não é assim tão fácil.
Se não foi, não é fácil para mim, menos fácil seria se não tivesse sido assim.
Quero poder dizer-to. Quero poder fazer-te imaginar, por um momento, como seria.
Como te sentirias tu, se cada movimento teu fosse uma ameaça para mim, se eu não fosse capaz de evitar dizer-me que todas as tuas palavras eram mentira.
Imagina.
Como poderia resultar?
Como poderia resultar agora?
Quem me dera que fosse possível.
Daria tudo. Venderia a alma ao Demónio.
Se pudesse ter-Nos de volta e apagar o que de mal foi feito, daria tudo.
Mas não dá.
E assim ficamos com uma situação sem solução.
Qualquer um dos caminhos, termina num penhasco.
E mesmo que eu queira cair...
Acredita que quero. Quero a liberdade, quero a adrenalina da queda.
Porque enquanto estou a cair, sinto-me como que a voar.
O problema é quando chego ao chão.
É que aí que se descobre que afinal foi tudo mais uma queda.
É aí que dói, mais uma vez.
E agora?
És tu, és tu.
Depois de todo este tempo.
Sempre.
Há coisas que não mudam e outras que nunca vou poder mudar.
Mais uma noite em claro.
Debaixo dos lençóis, escuto o silêncio. Quão precisa será a minha audição?
E se for mesmo apenas o silêncio tudo o que há para ouvir, como posso eu garantir que esse silêncio é confiável?
Por muito seguro que me sinta debaixo dos lençóis, sei lá eu se não está um demónio a pairar sobre mim, um monstro mudo debaixo da cama, um ladrão calado a espreitar pela janela.
Quão precisas foram as tuas palavras? Quão verdadeiras?
Sei lá eu que mentiras repousam para lá do nevoeiro das frases que saem da tua boca, e que o teu olhar confirma com segurança.
O que conheço de ti, reparo agora, foi o que tu mostraste em função do que querias mostrar, quando querias, como querias, multiplicado pelas minhas projecções e dividido pela minha interpretação subjectiva.
Aquilo que eu sou interfere com o cérebro na hora de interpretar a imagem que recebo de ti e de a traduzir num ser humano.
Por uma analogia contraditória, adicionamos aos Outros aspectos que nos pertencem e ainda outros que nos são opostos.
E, por isso, só conheço fragmentos de ti.
E ainda assim, conhecê-los-ei realmente?
Terá isso importância, no fim de contas?
Será assim tão necessário conhecer para amar?
Para quê?
Para quê, se tudo o que conhecemos de Outro são apenas fragmentos, e se nem sabemos se os conhecemos de facto?
Para quê, se vai ser sempre impossível conhecer a sua totalidade?
Tal como quem observa uma paisagem, ou estamos demasiado perto para ver o panorama geral ou demasiado longe para discernir todos os detalhes.
Para quê, se aquilo que tentamos conhecer é tão temporário?
É uma alma humana, exposta aos efeitos erosivos e transformadores do Tempo, do Lugar, de tudo o resto que a envolve.
Para quê, se o simples facto de tentar conhecer o Outro pode influenciar o que nos é mostrado?
Para quê tentar conhecer alguém quando nem nos conhecemos a nós próprios tanto quanto pensamos?
Devemos então contentar-nos com amar conhecendo um mínimo possível e subjectivo?
Devemos conformar-nos e sentir-nos seguros com a insegurança do desconhecimento?
Devemos tomar como infrutífera a obtenção de respostas, e viver assombrados pelas perguntas que pairam sobre o que nos é desconhecido?
É difícil optar entre um conhecimento relativo, fracamente construído e assente em suposições, presunções, preconceitos e ideias vagas e temporárias ou um desconhecimento aliado a uma despreocupação de conhecer que é ameaçada por enigmas e máquinas de ilusões.
Ambos não são mais do que um conforto aparente.
Para quê preocuparmo-nos com isto sequer?
Fico imóvel, quando chega o momento em que a cortina desce, em que a máscara cai, em que o olhar deixa de ser turvo e a visão torna-se clara.
E imóvel permaneço quando a verdade vem à tona.
Claro que fico imóvel, para quê mover-me? Não posso mudar-te agora, nem nunca pude.
Resta-me observar e deixar-me sofrer outra vez.
Resta-me esperar que cada dia consecutivo de dor seja o último.
E vem a tentativa de ser racional. Ora, tenho quase vinte anos, e a esperança média de vida para o ser humano é próxima dos oitenta, restam-me sessenta anos.
Entretanto, quantas mais bofetadas irei levar?
Quantas mais vezes isto terá de acontecer até parar? Ou nunca vai parar?
Vou ter de viver esta repetição durante sessenta anos?
Habituar-me a ver, mais tarde ou mais cedo, ou que o olhar daqueles que importam deixou de retribuir a luz do meu olhar quando estes se cruzam ou que eu próprio deixei de irradiar essa mesma luz?
Porque parece que não há um único ser vivo à face deste planeta que não tenha essa tendência sádica de causar desapontamento.
E, mais tarde ou mais cedo, não dá para evitar sentir que essa pessoa morreu: a pessoa que se julgava existir era, afinal, uma máscara. Por isso, é como se deixasse de existir.
E o que fica é o sabor amargo da desilusão, a par de memórias, criadas antes da verdade estar à vista, que só amarguram ainda mais, precisamente por serem apenas memórias de fragmentos irrecuperáveis de tempo.
É quando chega a saudade do ar leve e das cores brilhantes que perfumam a infância.
Porque a infância é o reino onde ninguém morre.
Depois disso, a cortina desce, a máscara cai, o olhar deixa de ser turvo e a visão torna-se clara: a realidade pesa e é cinzenta.
É da essência do ser humano querer outro ser humano.
No entanto, como nunca veremos o mundo sem ser pelos nossos próprios olhos, é lógico que, quando queremos alguém, projectamos expectativas nesse ser, as quais são moldadas de acordo com a nossa própria realidade.
(Não será, em boa verdade, que quando amamos alguém, amamos na verdade uma projecção perfeita de nós mesmos?)
Daí advém, pelo facto de cada ser humano viver uma realidade (interna e externa) exclusiva e ímpar, que cada qual ama e quer à sua maneira.
E assim se põe a questão: será possível que as formas particulares de duas certas pessoas amarem podem estar de tal modo ajustadas, como que talhadas à imagem uma da outra, que possa uma relação entre essas duas pessoas perdurar e tornar reais as promessas tontas de amor eterno e compromisso dedicado?
(Note-se que, a ser tal acontecimento possível, há ainda que contar com a ínfima probabilidade de que estas duas pessoas algum dia sequer se cruzem fisicamente.)
Matematicamente, deve ser tão provável quanto jogar, de uma vez, nas lotarias de todos os países do globo terrestre, e conseguir o primeiro prémio em todas.
E se tal fosse possível, como poderíamos reconhecer à partida que aquele era o ser humano feito à nossa medida?
E se pensássemos tê-lo reconhecido e não o deixássemos escapar, como poderíamos, dia após dia, estar certos de aquele esse ser humano era mesmo aquele para quem fomos feitos?
Como poderíamos ter a certeza absoluta de que era a isso que estávamos pré-determinados e de que não estaríamos a deixar a verdadeira criatura feita à nossa imagem escapar-nos?
E se finalmente a tivéssemos encontrado, como poderíamos todos os dias garantir que as nossas formas características de amar não seriam diferentes no dia seguinte, que permaneceriam ajustadas enquanto o tempo e as circunstâncias alteram a essência de cada um?
Mesmo que tudo isto fosse possível, e um dia morrêssemos com essa pessoa do nosso lado, cumprindo as promessas de que só a morte seria o fim, como nos iríamos congratular de ter alcançado tal feito?
Estaríamos mortos.
Como tal, não é honesto para connosco próprios acreditar que isto é possível.
É provavelmente impossível.
Querer tal coisa é pedir demasiado à sorte, e só é saudável superar e suprimir esse desejo.
Há que aceitar que tudo aquilo que começa, assim que começa, começa a caminhar em direcção ao fim.
Só assim, evitando a ansiedade desnecessária e as falsas esperanças, é possível saborear um momento, por mais simples e breve que seja.
Caso contrário, seremos sempre marionetas desta procura sem fim, correndo atrás da nossa própria sombra, como um cão que tenta apanhar a cauda.
Agarra-me.
Os Nossos lábios devem estar selados, sempre e para sempre.
Sabes que Eles de tudo farão para policiar os Nossos pensamentos e a Nossa vida, para Nos manter afastados.
Será este o Nosso último abraço?
Não, não pode ser.
Por amor, Resistimos.
Porque há coisas pelas quais vale a pena sofrer.
Porque, se penso nisso, não tenho sequer como agradecer a sorte que tive.
O cosmos é gigante, infinito, disperso. Em Tempo e em Espaço.
Era improvável que as Nossas almas acabassem por coexistir no espaço e no tempo.
E, no entanto, foi isso que aconteceu, contra todas as probabilidades.
Se há um destino, um Deus, se foi tudo um acaso, que me interessa?
Que importância pode isso ter para quem encontra tão cedo aquilo que outros procuram a vida inteira sem encontrar?
Que importância pode isso ter quando mesmo o tendo encontrado tão cedo, a vida nunca poderá ser suficiente para o viver?
Não dá para pensar nisso, não podemos perder tempo.
Não podemos parar, temos de correr.
Correr e rezar para que não encontrem o Nosso esconderijo.
E por amor, Resistiremos.
Fecho os olhos, não quero ver nada, não quero que nada me distraia.
Só quero concentrar-me.
Preciso de me concentrar para conseguir ver aquilo que escapa ao olhar.
Faço silêncio, tento sentí-lo.
Lá está ele. De novo.
Lá está ele a acelerar-me o ritmo cardíaco, a apertar-me o peito até que eu sinta a dor física.
O mesmo desespero, lá está ele, de novo.
Sai, desespero.
Sai, brota pelos meus olhos, escorre pelo meu rosto.
Ah, as lágrimas.
Estas são salgadas, são as mesmas de antes.
O desespero, que sempre lá esteve e que agora acordou, soltou-as.
É ele que me envenena a mente, suspirando as coisas em que eu não quero acreditar, mas que ele faz parecer inevitáveis.
"Nada perdura", sussura-me ele, ao ouvido, disfarçando a malícia.
"Sim, tudo acaba. Tudo o que amas está condenado, porque, contigo, as coisas boas nunca duram."
Quando dou por mim, ele já se calou, já não me aperta o coração.
Finge que não está lá, só porque sabe que eu hei de acreditar na ausência dele e que, quando ele voltar, vai doer mais ainda.
Não quero acreditar nessas coisas que ele me diz.
Não quero perder-te.
Quero puxar-te contra mim, agarrar-te e obrigar-te a ficar ao pé de mim, para sempre.
Lei do sacrifício.
Tudo o que a vida tem de bom, está associado a um custo, a um pré-pagamento, a um sacrifício necessário para transpor barreiras.
Quanto custa amar?
Quanto custa amar-te como te amo?
Custa terem passado três meses, e eu ter vivido apenas nove dias, em pleno.
O resto foram rascunhos de dias, nos quais ia tropeçando com a ansiedade de correr para te ver outra vez.
Custa a sensação que fica, quando já não estás.
O silêncio sufoca-me. Falta-me o teu toque. Não estou completo.
Custa viver com a distância.
Custa ter-te e não te ter.
Mesmo que te tenha, os quilómetros de terra e mar que impedem a minha boca de tocar na tua sempre que eu quero fazem deste Ter um Ter incompleto.
Custa ter de mentir com todas as letras e todos os dentes.
É a única forma de poder ter-te, mas custa.
Custa saber que tu tens de enfrentar tudo isto, tal como eu.
Saber que tens na boca este mesmo sabor, doce e amargo.
Saber que choras as mesma lágrimas que eu.
A vida seria estupidamente mais fácil se nunca me tivesse apaixonado pelo teu sorriso.
Mas que significado pode ter aquilo que é fácil de conseguir?
Há sacríficios que valem a pena.
Há preços que eu pago com um sorriso parvo e infantil estampado na cara, para sempre.
Não gosto.
Não gosto de não te ter por perto.
Não gosto de não te poder dar a mão quando quero.
Não gosto de não poder ver o teu sorriso todos os dias.
Não gosto de não te poder beijar ao acordar e ao deitar, e todas as vezes que me apetecer entre esses dois momentos.
Não gosto de saber que essa situação não está para mudar tão cedo.
Mas porque raio será, então, que a saudade, apesar de dolorosa, é um sentimento estranhamente agradável?
Porque é que as lágrimas que verto por saudade são doces e não salgadas?
Será por saber que todo o ciclo de saudade termina com a euforia do reencontro?
Sim, mas não só, descubro eu após reflectir.
É que, mesmo havendo muita coisa que não gosto, sei que te tenho.
É nisso que confio e acredito, religiosamente.
E disso já gosto.
Perante esse pensamento, que importância pode ter tudo aquilo de que não gosto e que penso incomodar-me?
Nenhuma.
Aqui estamos, hoje.
Hoje que é o amanhã com que estava preocupado ontem.
Por muito que tentemos iludir-nos com a nossa organização e divisão do tempo em dias, horas, minutos, a vida não tem relógio.
Flui, flui graciosa e gradualmente, como água.
Como um rio.
A forma como as coisas se vão dissolvendo umas nas outras, a forma como a vida nos traz ora uma lua nova ora uma lua cheia, não está nada escondida.
Basta tentar vê-la.
Qualquer um com um rascunho de diário, se relesse os últimos meses, anos da sua vida, poderia encontrar este fio condutor, esta brisa que a vida deixa no ar à medida que corre com o vento.
Uma linha harmoniosa que é linda de contemplar.
Saber de onde vim e pelo que passei para chegar onde estou hoje, para ter o que tenho hoje, faz-me ver que há, que sempre houve, um sentido.
Quero lembrar-me disto.
Por muito que tudo pareça um mar de rosas, o rio vai continuar a correr, e dias menos bons terão de vir.
Quando a escuridão voltar, quero lembrar-me de abrir os olhos um pouco mais e vislumbrar a linha que tem definido o meu percurso.
Quero lembrar-me de acreditar, com todas as forças, que o rio tumultuoso há de desaguar num oceano pacífico.
Porque é que tem de ser sempre assim?
As coisas insubstituíveis desvanecem, e, por serem insubstituíveis, o que fica é o vazio.
Mas frustrante é quando sentimos que não temos culpa, quando nem sequer percebemos a razão de tal nos estar a acontecer.
Frustrante é quando sentimos que a responsabilidade não é nossa e que, por isso, não merecemos que tal nos aconteça.
Ainda mais frustrante é que as coisas se desvanecem lentamente e, ocasionalmente, somos assombrados pela esperança de que pudemos reverter o processo.
Uma parvoíce, quando tal não depende de nós.
Nunca me senti tão substituído quanto hoje.
Nem sequer quando Tudo Aquilo aconteceu.
Chorei quando tinha lá fora um dia quente e um sol brilhante...
Mas tinha de chorar, não dava para aguentar.
Eu podia dizer "Quero lá saber",
mas estaria a mentir.
Estaria a mentir-me.
Tempos houve em que acreditar que há Algo de Bom por aí era fácil.
Como posso acreditar agora?
Depois da minha Grande Estupidez, a verdade ficou ainda mais clara: as coisas mudam, mas sempre para pior.
Será devido à minha capacidade excelente de destruir tudo aquilo que amo?
Sim, porque quando me ponho a analisar a evolução no tempo do que me rodeia, reparo que o que realmente importa nunca permanece.
E lembro-me, como dantes, de Tudo o que Aconteceu.
E como eu tenho saudades, como eu daria tudo por estar novamente nesse tempo que parece ter sido sonhado.
Lembro-me de como acreditava, estúpido e ingénuo, que ia ser para sempre assim.
Céu azul, florzinhas e arco-íris...
Qual quê?
Nada disso.
Não.
Daqui para a frente é escuro.
Teoricamente, poderia sempre mudar de caminho e evitar a escuridão.
Mas é tão ridiculamente ingénuo acreditar nisso.
E lembro-me que foi essa mesma ingenuidade que me trouxe até aqui, onde estou hoje.
Sei que daqui para frente vai piorar. Só pode, claro, como sempre.
Estou pronto e mentalizado para isso.
Adiantará?
Não me parece.
Tentar ver o meu futuro é perscrutar o silêncio da noite.
Não há nada para ver.
Mas também, de que estava eu à espera?
O que podia eu querer, se fui capaz de destruir tudo de bom que algum dia foi meu?
Desculpa.
Desculpa todas as vezes em que te atribui a responsabilidade da merda em que a minha vida se tornou, pois ela não é tua, de todo.
Tudo começou contigo, sim, mas não por tua causa.
O problema sou eu, fui sempre eu.
Nada perdura, e as coisas boas tendem a acabar depressa.
Por isso, tudo aquilo de que eu gosto, está condenado.
É inevitável.
Gostava mesmo de saber onde é que isto vai parar.
Mas não posso ter a certeza.
Pois há muito tempo deixei de escrever a minha história, passando a ser um mero actor.
Ando à deriva.
E ainda assim, no fundo, tenho a sensação que não vem aí nada de bom.
Mas não tenho medo.
Soube, desde o início, que seria assim.
Quando se espera o pior de tudo, não há nada de mau que possa surpreender-nos.
Desde que te conheci, e depois de Tudo O Que Aconteceu, não há nada de mau que possa surpreender-me.
Tão estúpida é a nossa noção do tempo.
Tão estúpida, mesmo quando o compartimentamos organizadamente em dias, semanas, meses, anos.
Tão estúpida, pois só agora, nos derradeiros dias de 2010, é que reflicto que este ano foi de facto o 2010º e que está a chegar ao fim.
Acho que o frio me faz pensar mais nestas coisas.
Hoje percebi o quão próximo estou de perder algo que amo.
Sim, já estamos em 2010, pensei eu hoje, percebendo as implicações. Não deve durar muito mais.
Chorei, como já não chorava há muito.
Não era só de tristeza, por saber que cada vez está mais perto o dia em que vou perder esse algo que tanto amo.
Era revolta. Por saber que não consigo, por mais que queira, travar a marcha autoritária do Tempo.
Era pânico. Por saber que passo metade da vida a querer avançar os dias, e outra metada a querer retroceder.
Era desespero. Por saber que, provavelmente não tão cedo, vai chegar o dia em que, inevitavelmente, vou perder outras coisas que amo.
Mas viver é mesmo assim, porque o tTempo não tira férias.
Viver é perder.
Há certos momentos, efémeros e raros, em que ganhamos, mas o saldo da vida é sempre negativo.
Tudo porque a vida é rápida demais.
E porque, quando nos damos conta disso, o Momento já passou.
É tarde demais.
A areia na ampulheta do Tempo cai sempre. Não pode parar.
Afinal de contas, obedece à Lei da Gravidade.
Por isso é que a areia nos escorrega pelos dedos.
E quando nos damos conta, tentamos agarrá-la.
Em vão.
Mas porque é que ainda estou aqui a escrever?
Mas porque é que tu aindas estás aí a ler?
Não há tempo a perder.
Vamos viver antes que a areia se esgote.
Estás em todo o lado, apesar de não estares em lado algum.
Aceitar isso é tão fácil quanto respirar.
Mas aceitar que arranjes sempre modo de aparecer em todo os recantos da minha vida é impossível.
Eu quero deixar-Te. Deixa-me deixar-Te.
Eu sei que não vais ler isto, sei que não sabes que eu Te vejo em tudo aquilo que vejo.
Mas deixa-me deixar-Te.
Não vais deixar, pois não?
E vêm eles dizer que vão ser os melhores anos da minha vida.
Não acredito. Não é possível. Como?
Como, se depois deste ano desastroso vou entrar em 2011 sem Te ter a prometer-me de novo o que me prometeste no dia 1 Janeiro de 2010?
Como, se não vais estar aqui para que eu possa voltar a prometer-Te o mesmo?
Como seria possível o que eles dizem, perante tal vazio apático?
Uma ideia: o parasita mais resiliente de todos.
Assim que a ideia surge, não há como voltar atrás.
Uma simples ideia pode construir cidades, ou destruí-las.
Uma simples ideia pode arruinar toda uma vida.
Uma simples ideia que fica para sempre a atormentar o nosso subconsciente.
Uma ideia pode surgir de uma promessa.
A tua promessa implantou-me uma ideia. Agora, não me posso ver livre dela e estou condenado a viver para sempre obcecado com ela, se é que isto é viver.
Prometeste-me que seria para sempre.
Iríamos construir o nosso próprio Mundo, envelhecer juntos até que nos tornássemos Almas Idosas.
Mas tu desapareceste. Apenas ficou uma projecção de ti. Uma projecção que eu revejo em sonhos (seja a dormir ou acordado), nos quais revisito o que vivemos.
Porque é que é tão importante sonhar?
Porque nos meus sonhos, estamos juntos.
A construir o nosso próprio mundo.
A envelhecer.
Tornando-nos Almas Idosas.
Já tentei trancar-te na prisão das memórias, mas não consigo evitar os sonhos em que te projecto de novo, os sonhos em que a imaginação permite-me estar de novo contigo, envelhecendo juntos, criando o nosso próprio Mundo.
Eu quero-Te mais do que consigo aguentar.
Mas a minha projecção de ti não chega.
Não consigo imaginar-te com toda a tua perfeição e a tua imperfeição.
És apenas uma sombra e eu tenho que te deixar partir.
Porque já tivemos o nosso tempo juntos.
Mas não consigo.
Uma vez feita a implantação, não há como voltar atrás.
Porque uma ideia é o parasita mais resiliente de todos.
Tomei a Atitude.
Agora, a vida ficou pior, como sempre fica.
Se até agora a mentira me dava conforto, a verdade tirou-me o direito de confiar em quer que seja.
E compreendi. Foi, sim, o destino que te pôs na minha vida. Estava tudo detalhadamente construído de forma a conduzir-me a algo muito pior.
2010 é um Pior Ano de Sempre cada vez pior.
Se alguém de facto acompanhasse este blog, esse alguém perguntar-se-ia porque é que eu não publico nada há semanas.
A resposta é simples.
A razão é que em trinta dias, nada aconteceu; ou nada mudou ou pouco mudou (para pior, claro).
Como é que possível que o silêncio e o Nada se prolonguem durante tanto tempo?
A resposta é simples.
O Nada e o silêncio já duram há muito mais tempo, pelo que não é difícil prolongarem-se mais um pouco.
Mas se assim é, se Nada acontece, qual poderá ser o motivo de escrita hoje?
A resposta é simples.
Hoje, algo mudou, finalmente. Tive um revelação que me surpreendeu, mas não assim tanto.
Admito que são sete os meses e três os dias em que não penso em mais nada a não ser no Teu nome e no Teu rosto e nos Teus lábios. Mas percebi que não é por Te amar.
Eu não Te amo. Em boa verdade, ter-te-ei amado algum dia?
Não, eu não Te amo. Eu amo-me a mim.
Apenas te quero de volta para poder cumprir os sonhos que criaste em mim.
Quero finalizar o meu passado incompleto.
Quero planear o meu futuro impossível.
Quero-te a ti para isso, sim. Mas apenas porque é o que me convém.
Sem ti, não consigo, porque, sem ti, não quero futuro, nem passado ou presente. Não, porque no fundo quero-te, mas só porque é a MINHA vontade.
Não é a tua vontade. A tua vontade pouco me importa. Eu quero-te para cumprir a vida a que EU não vivi e que nunca vou viver.
Eu imploraria para que voltasses. Não por te amar, mas porque EU quero-te de volta.
Se te amei, foi porque me convinhas.
No fundo, eu também te usei, então. Saber isso faz-me feliz. Porque até é justo.
Hoje, tudo mudou. O tempo de espera valeu a pena.
Percebi que sou um egoísta. E vou morrer de egoísmo por te querer sem que tu me queiras.
Sim, agora é mais fácil. Tenho três certezas.
Odeio-te.
(Por não me quereres.)
Quero-te.
(Por não me quereres.)
Vou morrer de egoísmo.
(Sabes porquê.)
Tal e qual.
Cento e oitenta dias da mais pura, dura e escura Noite.
Da-da-da-da-da-da-da.
Da-da-da, da-da-da,
Da-da-da-da-da-da-da.
Veio o Sol de Primavera, veio a Lua Cheia.
Veio a noite, mas também veio o dia.
Tudo foi, mas tudo veio.
Pessoas saíram da minha vida e deram lugar a outras.
E a relva continua verde, mesmo quando estou de sapatilhas.
E continuo a vaguear, embora a China não faça parte da Europa.
E o Porto não foi campeão, mas os gatos continuam a miar.
E a fruta não nasce do chão, nem mesmo quando penteio o cabelo.
"E é tudo sempre muito fixe, mas às vezes morre uma ovelha." (I. A.)
E eu percebi que o sentido da vida é a ausência de sentido.