Logicamente, o acto de coçar é estúpido.
Que puto de sentido faz uma pessoa estar a arranhar, esgadanhar a sua própria pele?
Não faz sentido nenhum, mas a pessoa fa-lo-á mesmo assim.
Porque coçar alivia a comichão.
Por momentos, é como se a comichão não existisse.
O que não estamos à espera é que, depois do suposto alívio, coçar traz vermilhidão. Só fez pior.
E coçamos novamente, para aliviar outra vez.
E qualquer dia damos por nós a arrancar a pele.
Deste-me comichão.
Claro que sim, detectar a ficção e a contradição nos lábios que normalmente me beijavam e que diziam, achava eu, a verdade, é incómodo, no mínimo.
Obviamente que cocei, e quanto mais coçava, mais precisava de coçar.
Para quê insistir tanto?
De que serve procurar tão a fundo?
Mesmo quando a verdade é óbvia e mete-se à frente dos nossos olhos, a rir-se de nós, sentimos a necessidade de ir mais a fundo.
De procurar mais detalhes, mais peças do puzzle.
Mesmo quando já só nos falta a última peça do canto e a imagem já é bem clara, precisamos dela, precisamos de encaixá-la.
O problema é que essa verdade é dolorosa, e cada peça encaixada parece trazer dor suficiente para mil anos.
Não faz sentido nenhum, mas nós fá-lo-emos, mesmo assim.
Tornamo-nos masoquistas pela verdade.
Porque todos vivemos em ilusões e chegamos a aceitá-lo, mas quando nos espetam com a verdade na cara, aí já não, já é demais, temos de recusar.
Por muito que a verdade magoe, precisamos dela como de uma droga. Fazemos de tudo para chegar a ela.
E qual a recompensa?
Perdemos tudo.
O que era nosso, de facto.
O que não o era, de facto, mas para nós o era, em ilusão, em sonhos.
A verdade fica com tudo o que nos pertencia.
Nós, que tanto fizemos por ela, por chegar até ela.
Mas ela é mesmo assim.
E por muito que não faça sentido, faríamos tudo isso novamente, mesmo assim.
Por muito que não faça sentido, da próxima vez que a comichão vier, coçaremos.
Até ao fundo, até ter a última peça do canto.
Até arrancar a pele.
Entretanto, tentamos viver de sorriso na cara, aproveitamos enquanto a comichão não volta.
Pergunto-me.
Porque se tento manter a minha mente ocupada sempre que possível, há alturas em que não há como escapar, e tu entras nela. Nós entramos.
É quando começo a reflectir sobre coisas impensáveis, procurando detalhes só porque sim, só porque assim outras memórias voltam.
Memórias são só memórias, mas se forem boas, porque não?
Mesmo que o final seja negativo, valem muito as memórias daqueles momentos em que era cego e surdo à verdade, e ignorava o abismo para o qual caminhávamos.
E, então, pergunto-me.
Apercebo-me daquilo que nunca me perguntei, e pergunto-me.
O que pensas tu de mim?
Hoje, o que pensas tu de mim?
Naquele dia, o que pensaste tu de mim?
Apercebo-me das possibilidades.
Será que pensaste que foi fácil para mim?
Será que pensas que não quero tudo de volta?
Será que não te ocorre que eu daria tudo o que tenho, vendia a alma ao Demónio, se em troca pudesse ter-Nos de volta? Se em troca pudesse mudar a realidade, transformar a verdade em ilusão, apagar as coisas más, e deixar apenas o que traz agora boas memórias?
Infelizmente, não é assim tão fácil.
Se não foi, não é fácil para mim, menos fácil seria se não tivesse sido assim.
Quero poder dizer-to. Quero poder fazer-te imaginar, por um momento, como seria.
Como te sentirias tu, se cada movimento teu fosse uma ameaça para mim, se eu não fosse capaz de evitar dizer-me que todas as tuas palavras eram mentira.
Imagina.
Como poderia resultar?
Como poderia resultar agora?
Quem me dera que fosse possível.
Daria tudo. Venderia a alma ao Demónio.
Se pudesse ter-Nos de volta e apagar o que de mal foi feito, daria tudo.
Mas não dá.
E assim ficamos com uma situação sem solução.
Qualquer um dos caminhos, termina num penhasco.
E mesmo que eu queira cair...
Acredita que quero. Quero a liberdade, quero a adrenalina da queda.
Porque enquanto estou a cair, sinto-me como que a voar.
O problema é quando chego ao chão.
É que aí que se descobre que afinal foi tudo mais uma queda.
É aí que dói, mais uma vez.
E agora?
És tu, és tu.
Depois de todo este tempo.
Sempre.
Há coisas que não mudam e outras que nunca vou poder mudar.