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The Boy Who Plays With Fire And Dreams About The Moon
"Sabes quem sou? Eu não sei." (Fernando Pessoa)
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Comichão.

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Logicamente, o acto de coçar é estúpido.

Que puto de sentido faz uma pessoa estar a arranhar, esgadanhar a sua própria pele?

Não faz sentido nenhum, mas a pessoa fa-lo-á mesmo assim.

Porque coçar alivia a comichão.

Por momentos, é como se a comichão não existisse.

O que não estamos à espera é que, depois do suposto alívio, coçar traz vermilhidão. Só fez pior.

E coçamos novamente, para aliviar outra vez.

E qualquer dia damos por nós a arrancar a pele.

Deste-me comichão.

Claro que sim, detectar a ficção e a contradição nos lábios que normalmente me beijavam e que diziam, achava eu, a verdade, é incómodo, no mínimo.

Obviamente que cocei, e quanto mais coçava, mais precisava de coçar.

Para quê insistir tanto?

De que serve procurar tão a fundo?

Mesmo quando a verdade é óbvia e mete-se à frente dos nossos olhos, a rir-se de nós, sentimos a necessidade de ir mais a fundo.

De procurar mais detalhes, mais peças do puzzle.

Mesmo quando já só nos falta a última peça do canto e a imagem já é bem clara, precisamos dela, precisamos de encaixá-la.

O problema é que essa verdade é dolorosa, e cada peça encaixada parece trazer dor suficiente para mil anos.

Não faz sentido nenhum, mas nós fá-lo-emos, mesmo assim.

Tornamo-nos masoquistas pela verdade.

Porque todos vivemos em ilusões e chegamos a aceitá-lo, mas quando nos espetam com a verdade na cara, aí já não, já é demais, temos de recusar.

Por muito que a verdade magoe, precisamos dela como de uma droga. Fazemos de tudo para chegar a ela.

E qual a recompensa?

Perdemos tudo.

O que era nosso, de facto.

O que não o era, de facto, mas para nós o era, em ilusão, em sonhos.

A verdade fica com tudo o que nos pertencia.

Nós, que tanto fizemos por ela, por chegar até ela.

Mas ela é mesmo assim.

E por muito que não faça sentido, faríamos tudo isso novamente, mesmo assim.

Por muito que não faça sentido, da próxima vez que a comichão vier, coçaremos.

Até ao fundo, até ter a última peça do canto.

Até arrancar a pele.

Entretanto, tentamos viver de sorriso na cara, aproveitamos enquanto a comichão não volta.


sábado, janeiro 28, 2012



Pergunto-me.

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Pergunto-me.

Porque se tento manter a minha mente ocupada sempre que possível, há alturas em que não há como escapar, e tu entras nela. Nós entramos.

É quando começo a reflectir sobre coisas impensáveis, procurando detalhes só porque sim, só porque assim outras memórias voltam.

Memórias são só memórias, mas se forem boas, porque não?

Mesmo que o final seja negativo, valem muito as memórias daqueles momentos em que era cego e surdo à verdade, e ignorava o abismo para o qual caminhávamos.

E, então, pergunto-me.

Apercebo-me daquilo que nunca me perguntei, e pergunto-me.

O que pensas tu de mim?

Hoje, o que pensas tu de mim?
Naquele dia, o que pensaste tu de mim?

Apercebo-me das possibilidades.

Será que pensaste que foi fácil para mim?

Será que pensas que não quero tudo de volta?

Será que não te ocorre que eu daria tudo o que tenho, vendia a alma ao Demónio, se em troca pudesse ter-Nos de volta? Se em troca pudesse mudar a realidade, transformar a verdade em ilusão, apagar as coisas más, e deixar apenas o que traz agora boas memórias?

Infelizmente, não é assim tão fácil.

Se não foi, não é fácil para mim, menos fácil seria se não tivesse sido assim.

Quero poder dizer-to. Quero poder fazer-te imaginar, por um momento, como seria.

Como te sentirias tu, se cada movimento teu fosse uma ameaça para mim, se eu não fosse capaz de evitar dizer-me que todas as tuas palavras eram mentira.

Imagina.

Como poderia resultar?

Como poderia resultar agora?

Quem me dera que fosse possível.

Daria tudo. Venderia a alma ao Demónio.

Se pudesse ter-Nos de volta e apagar o que de mal foi feito, daria tudo.

Mas não dá.

E assim ficamos com uma situação sem solução.
Qualquer um dos caminhos, termina num penhasco.

E mesmo que eu queira cair...
Acredita que quero. Quero a liberdade, quero a adrenalina da queda.

Porque enquanto estou a cair, sinto-me como que a voar.

O problema é quando chego ao chão.
É que aí que se descobre que afinal foi tudo mais uma queda.
É aí que dói, mais uma vez.

E agora?

És tu, és tu.
Depois de todo este tempo.
Sempre.

Há coisas que não mudam e outras que nunca vou poder mudar.


domingo, janeiro 15, 2012



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