Fecho os olhos, não quero ver nada, não quero que nada me distraia.
Só quero concentrar-me.
Preciso de me concentrar para conseguir ver aquilo que escapa ao olhar.
Faço silêncio, tento sentí-lo.
Lá está ele. De novo.
Lá está ele a acelerar-me o ritmo cardíaco, a apertar-me o peito até que eu sinta a dor física.
O mesmo desespero, lá está ele, de novo.
Sai, desespero.
Sai, brota pelos meus olhos, escorre pelo meu rosto.
Ah, as lágrimas.
Estas são salgadas, são as mesmas de antes.
O desespero, que sempre lá esteve e que agora acordou, soltou-as.
É ele que me envenena a mente, suspirando as coisas em que eu não quero acreditar, mas que ele faz parecer inevitáveis.
"Nada perdura", sussura-me ele, ao ouvido, disfarçando a malícia.
"Sim, tudo acaba. Tudo o que amas está condenado, porque, contigo, as coisas boas nunca duram."
Quando dou por mim, ele já se calou, já não me aperta o coração.
Finge que não está lá, só porque sabe que eu hei de acreditar na ausência dele e que, quando ele voltar, vai doer mais ainda.
Não quero acreditar nessas coisas que ele me diz.
Não quero perder-te.
Quero puxar-te contra mim, agarrar-te e obrigar-te a ficar ao pé de mim, para sempre.
Lei do sacrifício.
Tudo o que a vida tem de bom, está associado a um custo, a um pré-pagamento, a um sacrifício necessário para transpor barreiras.
Quanto custa amar?
Quanto custa amar-te como te amo?
Custa terem passado três meses, e eu ter vivido apenas nove dias, em pleno.
O resto foram rascunhos de dias, nos quais ia tropeçando com a ansiedade de correr para te ver outra vez.
Custa a sensação que fica, quando já não estás.
O silêncio sufoca-me. Falta-me o teu toque. Não estou completo.
Custa viver com a distância.
Custa ter-te e não te ter.
Mesmo que te tenha, os quilómetros de terra e mar que impedem a minha boca de tocar na tua sempre que eu quero fazem deste Ter um Ter incompleto.
Custa ter de mentir com todas as letras e todos os dentes.
É a única forma de poder ter-te, mas custa.
Custa saber que tu tens de enfrentar tudo isto, tal como eu.
Saber que tens na boca este mesmo sabor, doce e amargo.
Saber que choras as mesma lágrimas que eu.
A vida seria estupidamente mais fácil se nunca me tivesse apaixonado pelo teu sorriso.
Mas que significado pode ter aquilo que é fácil de conseguir?
Há sacríficios que valem a pena.
Há preços que eu pago com um sorriso parvo e infantil estampado na cara, para sempre.