Fico imóvel, quando chega o momento em que a cortina desce, em que a máscara cai, em que o olhar deixa de ser turvo e a visão torna-se clara.
E imóvel permaneço quando a verdade vem à tona.
Claro que fico imóvel, para quê mover-me? Não posso mudar-te agora, nem nunca pude.
Resta-me observar e deixar-me sofrer outra vez.
Resta-me esperar que cada dia consecutivo de dor seja o último.
E vem a tentativa de ser racional. Ora, tenho quase vinte anos, e a esperança média de vida para o ser humano é próxima dos oitenta, restam-me sessenta anos.
Entretanto, quantas mais bofetadas irei levar?
Quantas mais vezes isto terá de acontecer até parar? Ou nunca vai parar?
Vou ter de viver esta repetição durante sessenta anos?
Habituar-me a ver, mais tarde ou mais cedo, ou que o olhar daqueles que importam deixou de retribuir a luz do meu olhar quando estes se cruzam ou que eu próprio deixei de irradiar essa mesma luz?
Porque parece que não há um único ser vivo à face deste planeta que não tenha essa tendência sádica de causar desapontamento.
E, mais tarde ou mais cedo, não dá para evitar sentir que essa pessoa morreu: a pessoa que se julgava existir era, afinal, uma máscara. Por isso, é como se deixasse de existir.
E o que fica é o sabor amargo da desilusão, a par de memórias, criadas antes da verdade estar à vista, que só amarguram ainda mais, precisamente por serem apenas memórias de fragmentos irrecuperáveis de tempo.
É quando chega a saudade do ar leve e das cores brilhantes que perfumam a infância.
Porque a infância é o reino onde ninguém morre.
Depois disso, a cortina desce, a máscara cai, o olhar deixa de ser turvo e a visão torna-se clara: a realidade pesa e é cinzenta.
sábado, novembro 26, 2011
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