Mais uma noite em claro.
Debaixo dos lençóis, escuto o silêncio. Quão precisa será a minha audição?
E se for mesmo apenas o silêncio tudo o que há para ouvir, como posso eu garantir que esse silêncio é confiável?
Por muito seguro que me sinta debaixo dos lençóis, sei lá eu se não está um demónio a pairar sobre mim, um monstro mudo debaixo da cama, um ladrão calado a espreitar pela janela.
Quão precisas foram as tuas palavras? Quão verdadeiras?
Sei lá eu que mentiras repousam para lá do nevoeiro das frases que saem da tua boca, e que o teu olhar confirma com segurança.
O que conheço de ti, reparo agora, foi o que tu mostraste em função do que querias mostrar, quando querias, como querias, multiplicado pelas minhas projecções e dividido pela minha interpretação subjectiva.
Aquilo que eu sou interfere com o cérebro na hora de interpretar a imagem que recebo de ti e de a traduzir num ser humano.
Por uma analogia contraditória, adicionamos aos Outros aspectos que nos pertencem e ainda outros que nos são opostos.
E, por isso, só conheço fragmentos de ti.
E ainda assim, conhecê-los-ei realmente?
Terá isso importância, no fim de contas?
Será assim tão necessário conhecer para amar?
Para quê?
Para quê, se tudo o que conhecemos de Outro são apenas fragmentos, e se nem sabemos se os conhecemos de facto?
Para quê, se vai ser sempre impossível conhecer a sua totalidade?
Tal como quem observa uma paisagem, ou estamos demasiado perto para ver o panorama geral ou demasiado longe para discernir todos os detalhes.
Para quê, se aquilo que tentamos conhecer é tão temporário?
É uma alma humana, exposta aos efeitos erosivos e transformadores do Tempo, do Lugar, de tudo o resto que a envolve.
Para quê, se o simples facto de tentar conhecer o Outro pode influenciar o que nos é mostrado?
Para quê tentar conhecer alguém quando nem nos conhecemos a nós próprios tanto quanto pensamos?
Devemos então contentar-nos com amar conhecendo um mínimo possível e subjectivo?
Devemos conformar-nos e sentir-nos seguros com a insegurança do desconhecimento?
Devemos tomar como infrutífera a obtenção de respostas, e viver assombrados pelas perguntas que pairam sobre o que nos é desconhecido?
É difícil optar entre um conhecimento relativo, fracamente construído e assente em suposições, presunções, preconceitos e ideias vagas e temporárias ou um desconhecimento aliado a uma despreocupação de conhecer que é ameaçada por enigmas e máquinas de ilusões.
Ambos não são mais do que um conforto aparente.
Para quê preocuparmo-nos com isto sequer?