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The Boy Who Plays With Fire And Dreams About The Moon
"Sabes quem sou? Eu não sei." (Fernando Pessoa)
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Fragmentos.

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Quando te encontras na base de um importante maciço montanhoso, estás longe de conhecer toda a sua diversidade [...]. É apenas se sobes e se persegues o teu caminho que se revelam pouco a pouco a teus olhos os segredos da montanha, alguns que esperavas, outros que te surpreendem, uns essenciais, outros insignificantes, tudo isso sempre e unicamente em função da direcção que tomares; e nunca te revelarão todas.

O mesmo acontece quando te encontras diante de uma alma humana.

Arthur Schnitzler, in Observação do Homem


________ 


Mais uma noite em claro.

Debaixo dos lençóis, escuto o silêncio. Quão precisa será a minha audição?

E se for mesmo apenas o silêncio tudo o que há para ouvir, como posso eu garantir que esse silêncio é confiável?

Por muito seguro que me sinta debaixo dos lençóis, sei lá eu se não está um demónio a pairar sobre mim, um monstro mudo debaixo da cama, um ladrão calado a espreitar pela janela.

Quão precisas foram as tuas palavras? Quão verdadeiras?

Sei lá eu que mentiras repousam para lá do nevoeiro das frases que saem da tua boca, e que o teu olhar confirma com segurança.

O que conheço de ti, reparo agora, foi o que tu mostraste em função do que querias mostrar, quando querias, como querias, multiplicado pelas minhas projecções e dividido pela minha interpretação subjectiva.

Aquilo que eu sou interfere com o cérebro na hora de interpretar a imagem que recebo de ti e de a traduzir num ser humano.

Por uma analogia contraditória, adicionamos aos Outros aspectos que nos pertencem e ainda outros que nos são opostos.

E, por isso, só conheço fragmentos de ti.

E ainda assim, conhecê-los-ei realmente?

Terá isso importância, no fim de contas?

Será assim tão necessário conhecer para amar?

Para quê?

Para quê, se tudo o que conhecemos de Outro são apenas fragmentos, e se nem sabemos se os conhecemos de facto?

Para quê, se vai ser sempre impossível conhecer a sua totalidade?
Tal como quem observa uma paisagem, ou estamos demasiado perto para ver o panorama geral ou demasiado longe para discernir todos os detalhes.

Para quê, se aquilo que tentamos conhecer é tão temporário?
É uma alma humana, exposta aos efeitos erosivos e transformadores do Tempo, do Lugar, de tudo o resto que a envolve.

Para quê, se o simples facto de tentar conhecer o Outro pode influenciar o que nos é mostrado?

Para quê tentar conhecer alguém quando nem nos conhecemos a nós próprios tanto quanto pensamos?

Devemos então contentar-nos com amar conhecendo um mínimo possível e subjectivo?

Devemos conformar-nos e sentir-nos seguros com a insegurança do desconhecimento?

Devemos tomar como infrutífera a obtenção de respostas, e viver assombrados pelas perguntas que pairam sobre o que nos é desconhecido?

É difícil optar entre um conhecimento relativo, fracamente construído e assente em suposições, presunções, preconceitos e ideias vagas e temporárias ou um desconhecimento aliado a uma despreocupação de conhecer que é ameaçada por enigmas e máquinas de ilusões.

Ambos não são mais do que um conforto aparente.

Para quê preocuparmo-nos com isto sequer?

________


Aquilo que se te oferece ao primeiro olhar, por mais perto que estejas, está longe de ser a verdade e certamente nunca é toda a verdade. É apenas no decurso do caminho, quando os teus olhos se tornam mais penetrantes e nenhuma bruma perturba o teu olhar, que a natureza íntima dessa alma se revela a pouco a pouco e sempre por fragmentos. Aqui é a mesma coisa: à medida que te afastas da zona explorada, toda a diversidade que encontraste no caminho se esbate como um sonho, e quando te voltas uma última vez antes de te afastares, vês apenas de novo esse maciço que te surgia falsamente como muito simples, e esse cimo que não era o único que existia.

Apenas a direcção é realidade; o objectivo é sempre ficção, mesmo quando alcançado - sobretudo neste caso. 

Arthur Schnitzler, in Observação do Homem


quarta-feira, dezembro 28, 2011



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